LIDERANÇA PERDOADORA
A prática do perdão como condição para o exercício da liderança cristã
Para início de conversa...
“Então, Pedro, aproximando--se, lhe perguntou: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes?” (Mateus 18.21).A pergunta até poderia ser tida por infantil ou, por outro lado, legalista. Mas na verdade, foi de profunda pertinência: Existe um limite para a gente perdoar quem nos ofende? Que parâmetros devem nos nortear neste assunto? A pergunta de Pedro merece reflexão, não apenas a resposta do Mestre, embora muita atenção tenha sido dada a esta e, quase nenhuma, àquela.
Porém, é exatamente quando nos fixamos na pergunta de Pedro que percebemos a importância do perdão para o exercício da liderança cristã. Pois nela, subjazem preciosas inferências que muito ajudarão os líderes de nossas igrejas hoje; tanto aludindo aspectos pessoais, quanto se referindo às questões inerentes ao ministério.
Algumas reflexões:
1. Liderança pressupõe relacionamentos
Pedro era um líder e se preparava para exercer liderança em estágios ainda mais exigentes. Pedro sabia que liderar é conviver, caminhar, se comunicar, enfim, relacionar-se com pessoas. Liderar é se relacionar. Liderar bem é se relacionar bem. Neemias Lima Pastor da IB do Braga, Cabo Frio, RJ. Experiência agradável que desfrutamos em nossa Igreja é ter criado a Sala de Oração. Fica aberta toda quarta-feira, desde 6h59 até terminar o culto, por volta de 21h15. Quem passa por lá, encontra um ambiente preparado, material
impresso para reflexão, livro para anotações e oportunidade de compartilhar bênçãos e aflições.
Passar um tempo lá tem sido uma experiência marcante. Não só pelos benefícios da oração em si, mas também pelas pérolas que encontramos registradas por irmãos e irmãs.
Da problemática dos relacionamentos emerge a questão da comunicação e, por decorrência, a da linguagem.
Pois para nos relacionarmos bem, precisamos nos comunicar bem, e liderar é saber conversar, como bem ensinou Kim H. Krisko em seu livro “Leadership: The art of conversation – Conversation as a management tool”. Mas relacionamentos levam aos conflitos, atritos e choques de opiniões. Lidando com coisas assim, as pessoas erram, deixam a desejar, ficam por muitas vezes a quem das expectativas dos outros e de si
mesmas. Surge a necessidade do exercício do perdão. Então, liderar é também saber perdoar.
2. Liderança pressupõe paciência
“...Quantas vezes..” foi a pergunta de Pedro. A versão Revista e Corrigida trás “Até quantas vezes...”. O líder precisa ter paciência com as pessoas que lidera (Tiago 5.10 ). Nem todos responderão com a mesma
eficácia e prontidão aos ensinamentos e diretrizes. Alguns precisarão de mais tempo para digerirem alguns princípios e alguns conceitos e alguns nunca aceitarão determinadas coisas, mas com paciência o líder dá a cada um o tempo que necessita para crescer. O próprio líder também, em muitos casos, precisa ser alvo
da paciência dos liderados. Especialmente quando o que ele deseja fazer parece ser intempestivo ou oportuno. Neste caso o líder precisa ter paciência consigo mesmo (I João 3.20) e com os demais.
Paciência tem a ver com auto controle, aquela habilidade de controlar os impulsos.O interessante na resposta de Jesus é que deixa claro que nem sempre há um alívio temporal para as questões inerentes à liderança. Não chegará o dia do fim da paciência; tudo precisará ser resolvido de outra forma, através da atitude do próprio líder, não pelo calendário.
3. Liderança pressupõe fraternidade
“...o meu irmão...”. Pedro se recorreu a Jesus para orientar-se sobre como deveria portar-se quando seus irmãos pecassem contra ele. A liderança c r i s t ã não pode pr es c indi r deste pano de fundo formado
pela consciência da fraternidade na qual vivemos. A igreja é uma comunidade fraterna (I Timóteo 3.15). Ser líder é também ser irmão.O segredo para um rel acionamento fraterno é precisamente o que os principais
interlocutores contemporâneos da chamada liderança de serviço, como James C. Hunter que em seu livro “The world’smost powerful leadership principle”, lembra uma declaração muito séria e relevante do Dr.
Martin Luther King Jr., sobre servir, quando disse: “Todos podem ser grandes, porque todos podem servir. Você não precisa ter um curso universitário para servir. Você não precisa saber fazer o sujeito concordar com o verbo para servir... Você não precisa conhecer a segunda teoria da termodinâmica na Física para
servir. Você só precisa de um coração cheio de graça. Uma alma gerada pelo amor”. Se você conseguir servir seus liderados, amá-los como a irmãos, então você será um bom líder.
4. Liderança pressupõe disposição para perdoar
Sem disposição para o perdão o líder nunca terá relacionamentos saudáveis, jamais conseguirá ser paciente e também não será capaz de servir a uma fraternidade. Na verdade não será um bom líder. Pedro disse “...quantas vezes devo perdoar...”. Na versão revista e atualizada lemos: “...até quantas vezes meu irmão
pecará contra mim, que eu lhe perdoe?”. Pedro assumiu que deveria perdoar, embora precisasse ser orientado sobre como e com que limite deveria fazê-lo. Leia Marcos 11.25. A chave é o amor (I Coríntios 13.7). Para perdoar o líder vai precisar amar seus liderados. Por favor, não confunda isso com declarar que ama seus liderados, pois fazer isso é fácil demais. É necessário mostrar que ama através de gestos e de atitudes concretas, mormente através de doação de si mesmo aos liderados. O tipo de amor que deve estar
presente na liderança perdoadora está bem descrito em I Coríntios 13: paciente, bondoso, respeitável, não egoísta, perdoador, honesto, comprometido. Assim, o líder perdoa porque ama e ama porque foi amado primeiro.
Encerrando o assunto...
Liderança perdoadora é essencial na obra do Reino de Deus, pois a todo tempo estamos lidando com pessoas; e pessoas erram, mas acabam acertando se forem lideradas de forma perdoadora. Aprendamos olhar as pessoas pelo resultado delas e não pelas fases de suas vidas. Nunca fotografemos nossos liderados
e nossos irmãos num corte que isole apenas uma ou algumas fases de sua vida. Desenvolvamos a capacidade de olhar em quem elas se tornaram tendo passado por todas as fases de sua vida até aqui. E se quisermos ser ainda melhores líderes, como Jesus, olhemos as pessoas vislumbrando o que elas poderão vir a ser no futuro. Isso se nós, como líderes, formos capazes de liderá-las de forma perdoadora, dando a elas as oportunidades de que necessitam para se tornarem também como Jesus. Talvez sua pergunta agora seja semelhante à de Pedro: Até quantas vezes devo dar uma nova chance, uma, duas, sete? A pergunta é semelhante mas a resposta é exatamente a mesma: “...setenta vezes sete.”
Fonte: O Jornal Batista domingo 19/02/12
Pastor Lécio Dornas
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